A corrida pela inteligência artificial está produzindo uma consequência que pode chegar ao seu bolso mesmo que você nunca assine um serviço de IA: as memórias ficaram muito mais caras em 2026.
A expansão de data centers aumentou a procura por componentes de memória, enquanto fabricantes direcionam parte da capacidade para servidores e aplicações de IA, segmentos mais rentáveis. Do outro lado estão celulares, notebooks e PCs disputando essa oferta. TrendForce
Para quem pretende trocar de celular, comprar um notebook ou montar um PC, surge então uma pergunta importante:
é melhor comprar agora ou esperar 2027?
A resposta depende do produto — e entender a diferença entre DRAM e NAND ajuda a evitar tanto compras por medo quanto expectativas irreais de queda nos preços.
Por que a IA está aumentando o preço das memórias?
Para entender o problema, precisamos olhar além de ChatGPT, Gemini e outros serviços de inteligência artificial.
Essas ferramentas dependem de enormes data centers. Neles, aceleradores de IA utilizam HBM (High Bandwidth Memory), enquanto servidores também consomem grandes quantidades de DRAM convencional e armazenamento.
Com a expansão da infraestrutura de IA, esses componentes passaram a disputar capacidade industrial em uma escala muito maior.
A TrendForce aponta que fornecedores continuam priorizando capacidade avançada para produtos de alto desempenho destinados a servidores. No quarto trimestre de 2026, a oferta permanece insuficiente, enquanto aplicações ligadas à IA oferecem margens mais atraentes aos fabricantes. TrendForce
Isso não significa que as fábricas simplesmente deixaram de produzir memória para seu computador ou celular.
Significa que existe uma disputa pela capacidade de produção — e a infraestrutura de IA se tornou um cliente extremamente importante nessa disputa.
Quanto o preço das memórias aumentou?
Não existe uma única porcentagem, porque os valores mudam conforme o tipo de memória, aplicação e período analisado.
Mas alguns números ajudam a dimensionar o problema.
Segundo a Counterpoint Research, no primeiro trimestre de 2026 os preços de DRAM para dispositivos móveis aumentaram mais de 50% em relação ao trimestre anterior, enquanto NAND Flash subiu mais de 90%. Counterpoint Research
O impacto continuou ao longo do ano. A Counterpoint posteriormente registrou alta superior a 80% nos preços de memória para smartphones no segundo trimestre. Counterpoint Research
E a pressão ainda não acabou.
Para o quarto trimestre de 2026, a TrendForce projeta aumento de 10% a 15% nos preços contratuais de DRAM convencional e de 15% a 20% em NAND Flash. TrendForce
O ponto mais importante, portanto, não é escolher uma porcentagem isolada. É perceber que a indústria atravessou vários trimestres de aumentos acumulados.
Importante: memória 50% mais cara não significa celular 50% mais caro
RAM e armazenamento representam apenas uma parte do custo de fabricação de um eletrônico.
Processador, tela, câmeras, bateria, estrutura, logística, impostos e margem comercial também entram na conta.
Mesmo assim, o efeito pode ser relevante. A Counterpoint calcula que a alta das memórias no primeiro trimestre elevou em mais de 20% o custo total de componentes de determinados smartphones de entrada. Counterpoint Research
O fabricante pode então aumentar o preço, absorver parte do custo ou compensá-lo em outro lugar da ficha técnica.
Essa terceira possibilidade merece atenção.
O próximo celular pode custar mais — ou oferecer menos
Uma consequência menos óbvia da crise das memórias é que ela não precisa aparecer apenas na etiqueta de preço.
Imagine um smartphone planejado com 8 GB de RAM e 256 GB de armazenamento.
Se esses componentes ficam muito mais caros durante o desenvolvimento, a fabricante pode elevar o preço final. Mas também pode tentar preservar a faixa de preço economizando em alguma parte do produto.
Isso pode resultar em menos armazenamento, componentes mais baratos, câmera simplificada, construção inferior ou simplesmente uma evolução menor entre uma geração e outra.
A própria Counterpoint aponta que fabricantes estão simplificando especificações e portfólios para proteger margens diante da alta dos custos. Counterpoint Research
Por isso, nos próximos ciclos de lançamento será ainda mais importante perguntar não apenas “quanto custa?”, mas:
quanto hardware estou recebendo por esse dinheiro?
Esse raciocínio complementa bem nosso guia de melhores celulares custo-benefício, especialmente para quem está comparando um modelo atual com sua futura geração.
Celulares baratos são os mais vulneráveis
Esse problema merece atenção especial no Brasil.
Smartphones de entrada trabalham com margens menores e têm menos espaço para absorver grandes aumentos de componentes. A Counterpoint identifica justamente esse segmento como um dos mais afetados pela alta das memórias. Counterpoint Research
Na prática, a fabricante pode:
- aumentar o preço;
- reduzir RAM ou armazenamento;
- economizar em outros componentes;
- diminuir a variedade de modelos;
- aceitar margens menores.
Portanto, um lançamento que custa o mesmo que seu antecessor não necessariamente preservou o mesmo custo-benefício.
Comparar gerações passa a ser ainda mais importante.
Notebooks também estão sob pressão
Notebooks usam justamente dois componentes expostos ao mercado de memórias: RAM e SSD.
A TrendForce afirma que estoques de notebooks já refletem custos maiores de componentes no quarto trimestre de 2026 e que fabricantes continuam comprando DRAM diante da expectativa de oferta apertada em 2027. TrendForce
Nos modelos de entrada e intermediários, preservar preço e configuração ao mesmo tempo se torna particularmente difícil.
Por isso, configurações como 16 GB de RAM e SSD de 512 GB devem ser analisadas em relação aos concorrentes da mesma faixa — e não apenas consideradas boas isoladamente.
Quem está procurando um computador acessível pode usar como referência nosso guia de melhores notebooks baratos para estudar, mas vale observar com atenção a quantidade de RAM, armazenamento e possibilidade de upgrade.
E quem pretende montar ou atualizar um PC?
No desktop, a situação fica mais visível porque RAM e SSD podem ser comprados separadamente.
Mas existe uma armadilha:
preço alto hoje não significa que continuará subindo indefinidamente.
O mercado de memória é historicamente cíclico. Produção aumenta, estoques mudam e demanda oscila.
O diferencial atual é o tamanho da procura ligada à infraestrutura de IA.
Para 2027, a TrendForce espera que a demanda por DRAM continue crescendo mais rapidamente que a oferta, mantendo o mercado apertado. TrendForce
Isso não significa que vale estocar RAM porque “vai acabar”.
Para quem já precisa concluir um PC ou realizar uma atualização necessária, entretanto, esperar indefinidamente por uma queda rápida também não garante economia.
DRAM e SSD estão vivendo exatamente a mesma crise?
Não — e essa é uma das distinções mais importantes deste cenário.
DRAM é utilizada como memória de trabalho em computadores, celulares e servidores.
NAND Flash é a tecnologia utilizada principalmente para armazenamento em SSDs e smartphones.
Ambas sofreram forte pressão em 2026, mas as perspectivas para 2027 começam a divergir.
A TrendForce projeta que a demanda de IA continuará mantendo a DRAM apertada em 2027. Para NAND, porém, o aumento da produção e a fraqueza do mercado consumidor podem levar a uma oferta mais confortável na segunda metade de 2027, criando pressão de queda nos preços. TrendForce
Portanto:
DRAM: risco de oferta apertada por mais tempo.
NAND: também cara atualmente, mas com possibilidade maior de alívio durante 2027.
Isso é importante porque frases como “toda memória só vai ficar mais cara” simplificam demais um mercado que já começa a seguir caminhos diferentes.
Por que simplesmente fabricar mais memória não resolve?
Porque aumentar capacidade de semicondutores é caro e demorado.
Novas fábricas precisam ser construídas e equipadas; linhas existentes precisam migrar para processos mais avançados; e a produção ainda depende de rendimento, encapsulamento e testes.
A TrendForce observa que fabricantes já iniciaram expansões, mas os prazos de equipamentos, construção e produção significam que capacidade adicional relevante não aparece imediatamente. TrendForce
Enquanto isso, existe um incentivo econômico claro: servidores e produtos ligados à IA oferecem demanda elevada e margens atraentes.
Isso ajuda a explicar por que simplesmente “produzir mais RAM” não resolve o problema em alguns meses.
A crise pode continuar em 2027?
Para DRAM, os sinais atuais apontam que sim.
A TrendForce prevê que o crescimento da demanda continue superando a expansão da oferta em 2027. HBM e memórias para servidores continuarão consumindo parcela importante da capacidade disponível. TrendForce
NAND tem perspectiva diferente. Nova capacidade e aumento da produção podem aliviar a oferta durante o segundo semestre de 2027. TrendForce
Mas é fundamental tratar isso como previsão, não como certeza.
Mudanças nos investimentos em IA, expansão de produção, demanda menor por eletrônicos ou alterações macroeconômicas podem mudar o cenário.
Por isso, não seria responsável afirmar que “celulares ficarão X% mais caros em 2027”.
O que sabemos é que fabricantes estão entrando nos próximos ciclos de produtos com custos de memória significativamente maiores.
O que isso significa para o Brasil?
Aqui existe uma camada adicional.
O preço de um eletrônico no Brasil não depende apenas do custo internacional da memória. Também entram câmbio, impostos, logística, produção ou montagem local, estoques, concorrência, promoções e estratégia comercial.
Por isso, uma alta global de 15% em determinado componente não pode ser convertida diretamente em uma previsão de 15% no preço de um celular brasileiro.
Uma fabricante pode absorver parte do aumento. Outra pode repassá-lo. E um varejista ainda pode vender estoques adquiridos anteriormente.
Modelos antigos também podem entrar em promoção para abrir espaço para uma nova geração mesmo em um mercado de componentes caros.
Para o consumidor brasileiro, portanto, a melhor estratégia continua sendo olhar produto por produto.
Vale a pena comprar celular agora ou esperar 2027?
Não existe uma resposta universal.
Se seu celular funciona bem e você não pretendia trocá-lo, a alta das memórias não é motivo para antecipar uma compra desnecessária.
A situação muda para quem já planejava trocar de aparelho nos próximos meses.
Nesse caso, uma promoção realmente boa de um modelo atual pode ficar particularmente interessante. Parte desses aparelhos já está no varejo e pode ter sido produzida ou negociada antes de novos aumentos atingirem integralmente a cadeia.
Por outro lado, smartphones normalmente depreciam depois do lançamento, e novas gerações podem trazer processadores melhores, câmeras superiores e maior período de suporte.
A regra mais sensata é:
antecipe a compra apenas se o produto atual já atende ao que você procura e apareceu por um preço realmente competitivo.
Não compre por medo de uma previsão.
E notebook: comprar agora ou esperar?
A lógica é semelhante.
Se você precisa de um notebook para trabalhar ou estudar agora, adiar a compra durante meses apenas apostando em uma queda de RAM e SSD é uma aposta.
Mas também não vale comprar qualquer máquina por receio de aumento.
Eu observaria especialmente três pontos:
RAM: 16 GB oferece uma margem muito mais confortável para uso prolongado em muitos perfis.
SSD: 512 GB costuma ser uma configuração mais versátil do que 256 GB para quem pretende manter o computador por vários anos.
Upgrade: descubra se a memória é soldada ou expansível.
Em um período de componentes caros, a possibilidade de comprar uma configuração adequada hoje e ampliar posteriormente pode representar um diferencial importante.
E se eu estiver montando um PC?
Separe necessidade de especulação.
Se todo o computador está pronto e falta apenas a RAM, tentar acertar o menor preço possível do ciclo pode significar deixar uma máquina parada durante meses.
Compare lojas e, quando possível, histórico de preços. Se encontrar o kit de que realmente precisa dentro do orçamento, existe um argumento racional para concluir a montagem.
A situação é completamente diferente de comprar vários módulos apenas esperando revendê-los mais caros depois.
Memórias continuam sendo commodities cíclicas e as previsões podem mudar.
Hardware necessário para seu PC não deveria virar aposta financeira.
Quais produtos merecem mais atenção?
O impacto não será igual em todo eletrônico.
Celulares de entrada merecem atenção elevada porque trabalham com margens menores e já aparecem entre os mais afetados pela alta dos componentes. Counterpoint Research
Celulares intermediários podem sofrer tanto reajustes quanto concessões na ficha técnica.
Flagships também são afetados — e não estão imunes à pressão de margens —, embora o custo final dependa de muitos outros componentes. A Counterpoint já identificou mudanças relevantes na estrutura de custos até mesmo em aparelhos premium. Counterpoint Research
Notebooks baratos exigem atenção especial à quantidade e expansibilidade da RAM e à capacidade do SSD.
PCs montados expõem diretamente ao consumidor a variação do preço dos módulos de RAM.
SSDs continuam sujeitos ao mercado de NAND, mas não necessariamente seguirão a mesma trajetória da DRAM em 2027.
Não é a IA do seu celular que está deixando o aparelho mais caro
Existe uma distinção importante aqui.
Quando dizemos que “a IA está encarecendo celulares”, pode parecer que recursos como remover objetos de fotos ou conversar com um assistente são diretamente responsáveis pela alta.
O principal mecanismo discutido neste artigo é outro:
a infraestrutura necessária para sustentar a corrida global da inteligência artificial.
Data centers consomem chips, memória, armazenamento, energia e capacidade industrial em grande escala.
O consumidor de eletrônicos está no outro lado dessa cadeia.
Por isso, mesmo alguém que nunca utilize um chatbot pode sentir indiretamente parte dos efeitos econômicos da expansão da IA.
O que fazer antes de comprar
A situação mudou, mas as regras fundamentais de uma boa compra continuam válidas.
Não compre apenas por medo.
Compare o preço atual com o histórico do produto. Observe RAM e armazenamento. Analise modelos da geração anterior. Veja se o notebook permite upgrade. Em PCs, compare kits equivalentes e não presuma que DRAM e NAND seguirão a mesma trajetória.
E, principalmente:
não transforme uma previsão global do mercado de memória em uma tabela imaginária de preços futuros no Brasil.
A corrida da IA já está chegando ao bolso de quem compra eletrônicos
Durante algum tempo, a corrida da inteligência artificial parecia uma disputa distante entre empresas de software, fabricantes de chips e gigantes da nuvem.
O mercado de memória mostra como seus efeitos podem chegar muito mais longe.
Servidores precisam de quantidades crescentes de memória. Fabricantes direcionam capacidade para segmentos mais rentáveis. A oferta destinada a eletrônicos de consumo fica pressionada. Empresas que produzem celulares e computadores precisam então decidir como lidar com custos maiores.
Às vezes, absorvendo parte deles.
Às vezes, aumentando preços.
E existe uma terceira possibilidade que merece tanta atenção quanto o reajuste: pagar o mesmo por uma nova geração que evoluiu menos em hardware.
Para quem pretende comprar um celular, notebook ou montar um PC nos próximos meses, esse talvez seja o principal aprendizado.
Não é necessário entrar em pânico nem antecipar toda compra.
Mas comparar RAM, armazenamento, possibilidade de upgrade e o que cada geração entrega pelo preço será ainda mais importante em 2026 e 2027.
Perguntas frequentes
Por que a memória RAM ficou mais cara em 2026?
Entre os principais fatores estão a forte demanda de servidores e infraestrutura de IA, oferta limitada e a priorização de produtos de maior margem pelos fabricantes. TrendForce
A inteligência artificial pode aumentar o preço dos celulares?
Indiretamente, sim. A infraestrutura de IA aumenta a demanda por memória e pressiona a capacidade disponível. Fabricantes de smartphones podem absorver parte do custo, aumentar preços ou ajustar especificações.
Celulares ficarão mais caros em 2027?
Existe pressão de custos, principalmente em DRAM, mas não é possível prever quanto cada aparelho custará. Câmbio, impostos, concorrência, estoques e estratégia das fabricantes também influenciam os preços no Brasil.
É melhor comprar celular agora ou esperar?
Se você já pretendia trocar e encontrou um aparelho adequado por um preço realmente bom, comprar agora pode fazer sentido. Não vale antecipar uma compra desnecessária apenas por medo de aumentos futuros.
Notebook também pode ficar mais caro?
Sim. Notebooks utilizam DRAM e NAND Flash em seus SSDs e também estão expostos à alta dos componentes. A TrendForce aponta pressão de custos sobre o segmento. TrendForce
SSD vai continuar aumentando de preço?
Não necessariamente. NAND está cara em 2026, mas a TrendForce prevê que o aumento da oferta possa aliviar o mercado na segunda metade de 2027. TrendForce
Vale comprar memória RAM agora?
Se você já precisa da memória para uma atualização ou montagem, esperar indefinidamente por uma queda não garante economia. Comprar apenas para estocar ou especular com preços futuros é muito mais arriscado.
Celulares baratos são mais afetados?
O segmento de entrada é particularmente vulnerável. A Counterpoint registrou impacto superior a 20% no custo total de componentes de determinados aparelhos de entrada no primeiro trimestre de 2026.
